“Eles não podem se calar”
*Cobertura publicada no site Salvador Alternativo.
Se o personagem símbolo da sexta-feira 13 foi criado nos anos oitenta, nada mais justo que uma festa com o rock feito nesse período para se lembrar dessa data. Uma forte e improvável chuva não trouxe azar à segunda edição da Troca de Segredos, evento que celebra o berço do rock feito na Bahia. Dessa vez, a banda anfitriã Coveiros do Cover recebeu a Urublues, que fez um set em cima do chamado BRock. Assim como na primeira edição, a Troca foi ambientada no clima de confraternização entre os amigos da banda e amantes do bom e velho rock baiano da década de oitenta.
Pouco mais de meia-noite e os Coveiros do Cover sobem ao palco. O grupo foi formado, em meados do ano passado, por ex-integrantes da 14º Andar, Espírito de Porco e Ramal 12, grupos independentes que fizeram barulho na cena rocker baiana da época. Com o som ainda esquentando, os veteranos tocam, no início do repertório, o sucesso Você não pode se calar, música da 14º Andar, presente do disco Diversão do Novo Mundo.
Na sequência, o vocalista David Roth (ex-Espírito de Porco), vestido com uma camisa do disco London Calling, anuncia uma dos hinos do punk mundial. Should I stay or shoud I go, do Clash, deu início à animação do público, até então observador. Fizeram parte do set list outras importantes músicas para o rock, como Phyco Killer (Talking Heads), Substitute (The Who) e Sweet Jane (Velvet Underground). Roth lembrou da sintonia entre a decoração do Groove Bar e a ideia da festa antes de tocar The KKK took my baby away, dos Ramones.
O show ainda contou com diversas participações especiais. Miguel Cordeiro, da banda Koyotes, Messias, ex-Brincando de Deus e atualmente em carreira solo, e o guitarrista Karl Franz, ex-Camisa de Vênus, ajudaram os parceiros da Coveiros a exumarem clássicos como O Adventista, do Camisa. Entre os convidados, o destaque foi Eduardo Scott, ex-vocalista da lendária Gonorréia, segunda a despontar na cena, depois da banda de Marceleza. Com visual punk, Scott cantou Coma lixo pra morrer banguelo e a empolgante Satânico Telúrico, um dos pontos altos da noite. A apresentação dos Coveiros do Cover foi fechada com o sucesso Axé, música da Espírito de Porco, e o hino dos punks, Anarchy in the UK, dos Sex Pistols.
No intervalo, o DJ Pingüim, residente da casa, manteve o clima oitentista, em discotecagem especial para a Troca. Já eram quase duas da manhã quando a Urublues subiu ao palco. Com o repertório mais main stream, eles tocaram o que há de melhor no BRock. Não faltaram Vital e sua moto, dos Paralamas, Rebelde sem causa, do Ultraje, Núcleo Base, do finado Ira!, e até Eu que não amo você, dos Engenheiros do Hawaii. Aqui, Gustavo Mullen, ex-Camisa de Vênus, entra no jogo e toca algumas músicas com a banda, dentre elas a essencial Eu não matei Joana D’arc.
Com uma quantidade de público razoável, mas não ideal, a segunda edição da Troca de Segredos provou que ainda há muito o que se mostrar sobre a história do rock baiano. Entre os presentes, amigos das bandas e poucos representantes das gerações mais novas, o que não chegou a tirar o brilho da noite e a diversão de quem foi curtir a sexta-feira 13 em grande estilo.
A banda Coveiros do Cover é formada por David Roth (vocais), Marcão Botelho (baixo), Jerry Marlon (guitarra), Guiga “Bluesrock” (bateria) e Marcos Clement (guitarra).
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Essa festa deveria acontecer sempre. Os Coveiros do Cover é uma banda que representa uma parte importante da história do rock baiano. Uma pena é perceber que poucas pessoas dão valor a isso. Achei estranho ver apenas um representante dessa nova geração – e que tinha ido ver o “brother” da outra banda. Uns dizem que seriam “um bando de velhos” querendo ressuscitar o passado. Mas, quem não reconhece o passado, não faz o presente e não muda o futuro, já disseram.
Festival de Músicas Mestiças

Bélo no palco do Museu du Ritmo
Acontece hoje, no Museu du Ritmo (Comércio) a última noite do Festival de Músicas Mestiças. Em primeira edição realizada em Salvador, o evento, que faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil, reúne artistas musicais da cultura francófona e músicos baianos, ambos de matrizes africanas. A ideia é reforçar o diálogo entre essas linguagens. Como o próprio Bélo [foto] comentou em sua apresentação, ele tem muita influência de música brasileira, provando a ideia da festa. Ele dividiu o palco com Margareth Menezes, que cantou três músicas com o haitiano. Antes, esteve no palco o grupo Percussivo Novo Mundo.
Depois do show de Bélo, foi a vez de Didier Awadi, do Senegal. Ele começou a apresentação com sua banda, mas logo a cantora Mariella Santiago se juntou ao senegalês, tomando a atenção. Mariella esteve todo o tempo em sintonia com Didier e fez da sua participação a melhor da noite, ficando quase todo o show no palco.
O festival teve início na sexta-feira, 13, e termina hoje com Mounira Mitchala, do Chade, com participação da percussão do Olodum, e Tiken Jah Fakoli, da Costa do Marfim, que se apresenta com junto a Lazzo Matumbi. O evento é dominado por artistas, turistas e “exceções” que apreciam a boa música africana.
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Não só parte das comemorações do Ano da França, mas o Festival de Músicas Mestiças integra um quadro de excelente programação musical da cidade. Eventos da FUNCEB, por exemplo, levaram boa música ao Pelourinho, como Maria Gadú, Mariana Aydar, Maquinado e Macaco Bong no Música em Todos os Ouvidos.
A volta
É hora de para de ter medo de não conseguir fazer as coisas. Hora de parar de ter medo do potencial. Esse potencial que é meu e que, aos poucos, vai se perdendo aqui.
Isso é tão Kafka.
Para começar bem o final de semana

O local não está exatamente no circuito alternativo de Salvador, mas faz sucesso com banda e boa parte do público que circula na chamada “cena”. De janeiro para cá – quando o bar 30 Segundos foi inaugurado – a Cavern Beatles, melhor banda cover do gênero na cidade, vem atraindo público diverso, em um espaço que propicia aos alternativos momentos de mainstream e vice-versa. Isso parece ser tendência em muitos bares da cidade, que vão apostando no pop cada vez mais rock para animar a noite das pessoas que frequentam outros circuitos.
Sempre às sextas-feiras, o 30 Segundos recebe, em média, duzentas e cinquenta pessoas, que dançam ao som de megahits como Twist and Shout e Help e canções alternativas dos Beatles; I’m a loser e When I’m sixty four, são algumas destas. Os momentos de Run for your life, All my loving e Oh Darling também são destaques. A banda é afiada, com músicos que não deixam a desejar.
Mesmo quem não conhece ou não se diverte com o quarteto mais adorado da música pop mundial, pode aproveitar a segunda parte da apresentação, quando rolam clássicos do Dire Straits e Chuck Berry , Detalhes, do nosso Robertão e até Whiskey a Go Go, do Roupa Nova. Os rapazes ainda incrementam a noite com brincadeiras com o público (correio do amor) e roupas que remetem diretamente ao clima da Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
“A animação da banda, o repertório, o local agradável e, principalmente, a publicidade boca a boca”. Marccela Vegah, 20, já foi ao show oito vezes e explica porquê frequenta o evento. A estudante, que anda no meio alternativo, conta que já levou as amigas para conhecerem o grupo, e estas também já levaram outras pessoas.
Pronto, está aí a fórmula da bem sucedida temporada de shows que a Cavern Beatles vem fazendo no 30 Segundos, que fica em um dos locais mais alternativos da cidade, o Rio Vermelho. Coincidência ou não, a localização do bar faz a diferença, e acaba sendo uma opção diferente para quem não consegue pensar em diversão além da orla do bairro. Boa dica para começar bem o final de semana.
Cavern Beatles – Banda formada em 2006, como um projeto paralelo da Starla, por Ted Simões (voz e violão) e Rafael Zumaeta (baixo), da formação original, Eric Assmar (guitarra e vocais), que também toca com Vandex, Estevam Dantas (teclado e vocais) e Pedro Dantas (bateria e vocais). O grupo tem no currículo shows promocionais e apresentação em alguns bares da cidade.
Aproveita o saco e joga no lixo

Jogar no lixo. É isso que se deve fazer com o novo cd dos Titãs. Aproveita o nome do disco, e joga no lixo.
Os Titãs já vinham em franco declínio, com a lançamento de álbuns cada vez mais sem razão e com a cara da Rede Globo. Sacos Plásticos, no entanto, encerra aquela que, um dia, fora uma grande banda. Para começar, a produção do trabalho foi entregue a um dos piores produtores do mercado. Rick Bonadio, um cara que estraga tudo o que cai em suas mãos, sobretudo o que é rock, conseguiu piorar o já ruim trabalho dos Titãs. Se com Como Estão Vocês, você ainda tinha certa paciência com uma Eu não sou um bom lugar da vida, em Sacos Plásticos, não há nada aproveitável.
O problema de Bonadio é que ele acha que todas as bandas de rock devem ser iguais. Ele não respeita as particularidades de cada uma. E, como não bastasse, ele ainda bestifica o som, as letras e tudo o que possa fazer parte do álbum. Foi assim que fez com o Ira!, banda que acabou logo após lançar o Invisível DJ, produzido pelo cafetão Bonadio. O que dizer de um produtor que coloca a dupla Nasi e Scandurra para executar uma música de Rodrigo Koala, vocalista da péssima Hateen? Não há o que dizer.
O que foi feito com os Titãs foi parecido. Apesar de não ter colocado os veterenos para tocarem Charlie Brown Jr ou Fresno, o álbum tem batidas eletrônicas constrangedoras e desnecessárias, que igualam Sacos Plásticos a qualquer disco desses grupos que nascem só para entrar na trilha sonora de Malhação.
Amor por dinheiro, Múmias e Problema, com participação de Arnaldo Antunes na composição, são as mais imaturas. Porque eu sei que é amor e Deixa eu sangrar são reprises das baladas chatas que vêm colocando os Titãs na mídia. Estas, no entanto, não possuem nenhum potencial para sequer tocar na rádio. De fato, Antes de você, primeiro single do disco, é a melhor, apesar de provocar vegonha alheia escutar um homem de 45 anos, no mínimo, cantando: “não saio mais pra passear, só quero ir aonde você está”. Ainda há uma música em parceria com Andreas Kisser, Deixa eu entrar, que não desperta nenhuma atenção.
Não percam tempo com Sacos Plásticos. E só apareçam em show dos Titãs na turnê de comemoração dos 30 anos da banda.
Zii e Zie na Concha

Tímida descontração
As músicas do Zii e Zie são muito melhores ao vivo. As versões de Não identificado e Água, música de Kassin + 2, combinaram com a estética do show, marcando os melhores momentos da noite. O resto é crítica.
A gente sempre espera mais de Caetano. E, dessa vez, as expectativas não foram superadas. Foi uma apresentação redonda, bem executada. Até demais, arrisco dizer. Nenhum improviso, nenhuma polêmica, nada que marcasse o lançamento desse novo álbum de Caetano Veloso em Salvador. O problema, como já havia comentado, não é da banda Cê ou do mestre, e sim do disco.
Uma mudança ou outra no set, uns ajustes em algumas versões, e o show estaria perfeito para acontecer na sala principal do TCA.
E ela também estava presente, de branco, como sempre. Dona Canô é uma atração à parte.
Sem Cais continua sendo a melhor do disco. Base de Guantánamo, no entanto, surpreende a cada escuta, sobretudo ao vivo.

Caetano Veloso e a banda Cê

(Apenas) Danilo já basta

Danilo Gentili fez o melhor dos três stand-up comedies. Sem precisar de exageros ou fazer caras e boas, ele conseguiu, apenas com o texto, fazer um TCA lotado cair na gargalhada. Não muito o que acrescentar: público e show foram bastante parecidos, com a diferença que Gentili não fez nenhuma piada exageradamente preconceituosa – e aqui já é uma opinião bem pessoal. Sabia que seu humor era mais político, mais crítico, o mais inteligente dos três. Ele ainda mostrou-se antenado com os problemas de Salvador, quando fez uma piada sobre João Henrique e o lendário metrô (“quando o metrô sair, já vai existir teletransporte…”).
Por um momento, logo no início, achei-o um pouco nervoso. Também pudera, encarar um Teatro Castro Alves lotado, em um show que costuma ser mais intimista, não deve ser nada fácil.
O saldo desse festival de stand-up comedy foi bastante positivo. Descobri que bem aqui, na Boomerangue, está rolando, todas as quintas, esse tipo de show de humor. Vou procurar saber mais para colocar as informações aqui.
Nota: Danilo estava com (exatamente) a mesma roupa que Rafinha Bastos: calça jeans claro, camisa preta surrada e all star preto.
Discordando

Não gosto de humor preconceituoso. Não acho graça em piadas do tipo: ” sou contra a fila preferencial para idosos porque não tem necessidade. O idoso não tem pressa mesmo…”. Dei poucas risadas com o show de Rafinha Bastos. Fiquei constrangida em vários momentos e, no geral, achei o show mediano. Se eu tivesse uma personalidade um pouco mais escrota e não raciocinasse as piadas, certeza que me divertiria muito mais. O espetáculo é todo voltado para a classe média média e média alta, com piadas que só quem tem tv a cabo e fala inglês poderiam entender. E olhe que estavam presentes pessoas que aparentavam nunca terem entrado em um teatro, pois tiravam inúmeras fotos, certamente para guardar de recordação.
Oscar conseguiu ser melhor, arrancou mais as minhas risadas. Espero, hoje, de Danilo, um espetáculo mais politizado. Pelo que vi no Youtube, ele não parece ser um paulista ou curitibano babaca, que não raciocina a realidade um palmo fora do seu circuito cultural, político e econômico.
Na Bahia é “putz grila”

O público foi bem diverso. Não era possível identificar tribos. Reparei apenas na quantidade de adolescentes, todos fãs do CQC, provavelmente.
Em um teatro cheio até pouco mais da metade, Oscar Filho conseguiu arrancar boas risadas do público. Alguns momentos constragedores, outros bastante engraçados. Humor, definitivamente, é uma coisa pessoal. No geral, o espetáculo é muito bom, vale a pena o gasto. É quase uma hora e trinta minutos de relaxamento e contração dos músculos da face. Sem a interpretação caricata de Oscar, excelente ator, seria bem provável que o Putz Grill não fosse tão bacana. Ele ainda apela para algumas piadas que necessitam da caracterização de tipos, ou seja, a graça não depende somente do texto. Pude rir até mais do que esperava. E, quem diria, o momento em que dei mais gargalhadas foi, talvez, um dos menos, digamos, provavelmente engraçado. Foi quando ele imitou uma águia. É claro, existiu um contexto ali, no qual só quem estava presente talvez me entenda. Mas, repetindo, humor é algo bastante pessoal, já disse um amigo.
O que atrapalhou um pouco o espetáculo foi a falta de produção. Era nítido o descompromisso de quem estavam ali trabalhando por trás do projeto. As diversas falhas nos dois microfones atrapalharam o espetáculo diversas vezes, comprometendo, inclusive, uma das piadas, deixando humorista e público sem graças.
Quem foi no Youtube conferir alguma coisa do Putz Grill, viu piada repetida. A piada sobre a batida do carro – que explica o nome da peça – e a análise de uma letra de Legião Urbana (Faroeste Caboclo) continuaram no texto. Ainda bem que Oscar leu o meu comentário em seu blog e tirou o trecho onde escaldava os baianos, através de uma música de Caymmi (Maracangalha).
A impressão que se tem é que esse show seria melhor em um espaço menor – um teatro menor, talvez. A dimensão do Teatro Castro Alves intimida o humorista a humanizar mais o espetáculo, dialogando pouco com o público improvisadamente.
As impressões foram positivas. O saldo foi ótimo. Uma pena eu não poder dizer que ainda dá tempo de garantir entrada para as apresentações de Rafinha Bastos (hoje) e Danilo Gentili (amanhã), porque não dá. Os ingressos estão esgotados.
Sem presepada
Antes que eu esqueça, vou logo indicar uma excelente descoberta. Quem gosta de rock indie sem presepada e de qualidade, não pode deixar de conhecer a banda The Virgins. Grupo formado em 2006, no berço da rock and roll New York City, The Virgins já tocou com o Jet, Sonic Youth e até com a musa do punk, Patti Smith. O primeiro e único álbum da banda é homônimo, e foi lançado em 2008. Conheci o som desses quatro rapazes atráves de uma dupla chamada The Twelves, composta pelos DJs Luciano Oliveira e João Miguel. Escutei uns mixes muito bons do Twelves, dentre eles Ce Jeu, da Yelle, e Two Hearts, da Kylie Minogue. Mas foi através do remix de Rich Girls, single do Virgins, que conheci a dupla.
Vale lembrar que “rock indie sem presepada”, hoje em dia, é muito raro. Misen scene at first!
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Outra boa dica, agora de cinema, é a exibição do filme Garapa, do renomado José Padilha. O diretor ficou conhecido por trabalhar as temáticas “de dentro para fora”, imprimindo pontos de vista diversos do lugar-comum. Assim foi em Ônibus 174 e Tropa de Elite. Em Garapa, quem tem a voz são os que sentem fome. ÀS 20 horas, no Espaço Unibanco Glauber Rocha, em sessão especial, com a presença do diretor. Grátis.
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Só não vai poder ir quem já comprou seu ingresso para o primeiro dia da 1º Mostra de Humor – Stand-up comedy. Amanhã é o dia de Oscar Filho e o seu Putz Grill.
Estou fazendo a maior propaganda porque, de fato, acredito que darei muitas risadas. Sei que os órfãos de humor inteligente, e que se sentem deslocados por não acharem graça em Hermes & Renato, vão gostar. Mas não tenha dúvida: se os stand-up comedies forem ruins, não terei o menor receio em criticar.

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